Cronópios Editora

Um espaço de discussão e aprendizado para professores de Língua Portuguesa.

11.2.08

Ler para...

Daniel Penac, em seu livro "Como um romance", diz que o verbo ler não suporta o imperativo. Aversão que partilha com alguns outros: o verbo amar...o verbo sonhar...Bem, é sempre possível tentar, é claro. Vamos lá: “Me ame”! “Sonhe!” “Leia”!” Leia logo, que diabo, eu estou mandando você ler!”Assim como não fica bem mandar que alguém nos ame, a menos que o uso do imperativo esteja inserido num jogo de sedução (e disso ninguém reclama), também parece estranho que alguém nos obrigue, imperativamente, a ler. Afinal de contas, assim como amar ou sonhar, o ato de ler deveria estar sempre associado a escolhas do leitor que, diante de necessidades pessoais, decide ler isso ou aquilo, agora ou depois.
Sim, porque, no fundo, mesmo que a leitura aparentemente esteja relacionada a coisas externas ao leitor (um trabalho escolar solicitado pelo professor; um texto teórico para a discussão em um grupo de estudo etc.), é sempre fruto de uma escolha: estar inserido em diferentes contextos e querer exercer um papel. Leitores experientes sabem disso e não se sentem realmente “obrigados” diante de tal imperativo de que nos fala Penac. Digamos que o ato de ler para esses leitores seja sempre um jogo de sedução que, mesmo disfarçado pelo compromisso externo, lhes apresenta uma promessa de prazer sublimado.
O que de prazer cada leitor, em particular, alcança, tem a ver evidentemente com sua história de vida e seu repertório. E não pode ser dimensionado pelo outro por ser indizível. De fora, ficamos com tênues palavras que, com mais ou menos intensidade, revelam apenas um pouco da experiência de ler. De dentro, ficamos com nossas impressões, sensações, revelações, idéias, despertares... e tudo o mais que, por vezes e com um pouco de sorte, nos leva ao encontro das epifanias que nos sustentam o corpo e a alma.
Sem dúvida, não é desse tipo de leitura que tratamos em nossas salas de aulas, infelizmente, porque lá, na escola, ler é imperativo que se define como obrigação: ler para conhecer autores; ler para estudar gramática; ler para saber literatura; ler para estudar para a prova; ler para...não gostar de ler. Nada parece menos surpreendente do que o depoimento de crianças e adolescentes sobre o quanto o ato de ler se mostra vazio de sentido. Uma vez que a leitura relaciona-se com todos os conteúdos a serem ensinados na escola, sendo tratada como meio para se atingir objetivos externos a ela, perde-se enquanto fim em si mesma. E deixa perdidas todas as possibilidades de que, nesse contexto, leitores se constituam como sujeitos ao se servirem desse instrumento de cultura e prazer. Gustave Lanson (1894), um homem com idéias bem avançadas para sua época, dizia que a leitura (de literatura) deveria servir ao aperfeiçoamento intelectual, produzindo prazer intelectual. Ao invés de se estudar literatura para saber literatura, era preciso ler literatura e amá-la.
Desse modo, voltamos ao começo e relacionamos novamente ler com amar. O despertar do leitor não se dá gratuitamente, diante da imposição do verbo. É preciso a promessa implícita no jogo que oculta e revela, diz e cala, encontra e despede, descobre e permite que o leitor seja um sujeito com direitos: “de não ler; de pular páginas; de reler; de ler qualquer coisa; de ler em qualquer lugar; de ler uma frase aqui outra ali; de ler em voz alta ou de simplesmente calar”. (Penac, 1993) Um sujeito que, no final das contas, pode ser qualquer um de nós, resgatado nas palavras lidas que nos contam de nossas experiências.
Daí, contamos histórias e seduzimos o outro, que sonha, ama e lê, porque se quer seduzido...
Eliane Aguiar

1 Comments:

  • At 17/02/2008 13:00, Blogger Fernando said…

    Ola Eliane.. gostei mto do seu post!

    abracos
    Fernando FAntini
    http://www.comunidade.cn/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=3412

     

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